sábado, 5 de fevereiro de 2011


BRINCANDO COM BONECAS E FAZENDO GUISADO
Quando criança a minha brincadeira predileta era brincar de boneca. Esta diversão incluía o batizado das bonecas, o casamento e o aniversário. Entretanto, o que se comemorava com mais entusiasmo era o batizado, um dia cheio de animação e de festa. Esta brincadeira acontecia sempre no dia de domingo. As amigas convidadas traziam suas bonecas, muito bem vestidas, para celebrar o evento. Na oportunidade, o costume era fazer guisado. O guisado constava de arroz, macarrão, galinha e farofa feita da tripa da galinha. Nós limpávamos muito bem as tripas, virando com um pauzinho e então escaldava, e por fim fritava no óleo. Depois de pronta, que delícia! No sábado, dia de feira e véspera da brincadeira, juntávamos nossos trocados (não existia a palavra mesada), eram moedinhas que papai nos dava esporadicamente (a mim, Regina e Marleide). Com esse dinheiro comprávamos as panelas de barro que seriam usadas no guisado. No quintal era improvisado um fogão feito com pedras de paralelepípedo, formando uma trempe, onde se colocava carvão e aí cozinhava nossa comida. Era uma farra só. É bom lembrar que sempre tinha o acompanhamento de uma pessoa mais adulta. No caso da brincadeira em minha casa, a pessoa que nos acompanhava era Francisquinha, funcionária da mercearia de papai. Os ingredientes para o guisado mamãe nos dava e também os pratos e as colheres. Quando a comida estava pronta todos sentavam no chão para serem servidos. Ainda sinto o cheiro de tão saborosa comida. Talvez por ser feita por nós, ainda crianças, o sabor não tinha igual. No final, todas alimentadas, as tarefas eram divididas, umas meninas lavavam e outras enxugavam, tudo bem organizado. Lembro de um episódio que aconteceu com minha irmã Analuce, pois ela não participou das minhas brincadeiras devido à diferença de idade, as amigas dela já eram outras. Ela gostava também de brincar de guisado e ficou combinado no sítio de um tio esta gostosa brincadeira. Ela juntamente com as primas e umas três amigas muito afoitas resolveram matar a galinha. Mas como não tinham experiência foram puxar o pescoço, e que tragédia! A penosa nada de morrer, colocaram-na, então, em água fervente para depená-la, porém mesmo assim ela continuou resistindo ainda por muito tempo. Até que finalmente morreu. Mas no final das contas não tiveram coragem de comer a galinha, só as outras comidas. Essa gafe serviu de gozação por muito tempo.
Panelas de barro semelhantes as que usava para fazer guisados.

Em conversa com Iara Rocha, relembrando nossa época de criança, ela contou que gostava junto com suas irmãs e amigas da vizinhança celebrar a coroação de Nossa Senhora, no dia 31 de maio. Vestiam as bonecas de anjo, de oito a dez, com uma túnica de cetim, asas e coroas cobertas com areia prateada, tudo sob a orientação de sua mãe e de uma pessoa que morava na sua casa. A areia prateada era comprada na loja de Dona Rosinha, localizada na Rua São Pedro esquina com Avenida Dr. Floro. As roupas ficavam maravilhosas. Esse altar, ornamentado com flores colhidas na Praça do Cinqüentenário, depois de pronto ficava parecido com o altar verdadeiro da igreja, onde se celebrava a coroação. Muita gente de fora vinha participar. Uma das meninas do grupo era selecionada para coroar Nossa Senhora. Os bolos feitos por sua mãe, Dona Irene, era distribuído com os convidados. Ela ressalta com alegria e saudade estes momentos de alegria vividos. De Iara tenho uma grata lembrança e ainda faz parte dos meus guardados, a roupa da minha boneca Suzi que enfeitou meu bolo de casamento e foi confeccionada por ela. Naquela época era a única estilista de boneca existente em Juazeiro. Iara confeccionou divinamente bem o vestido de noiva, igualzinho ao que vesti, e também a grinalda. Atualmente, já se encontram à venda nas lojas verdadeiros guarda-roupas de bonecas, têm até grife. Mas, o sentido artesanal, a dedicação em fazer com mãos habilidosas não têm mais o mesmo valor, pois hoje tudo é muito prático. E assim as características da época da minha infância, as brincadeiras, as diversões, as amiguinhas reunidas para brincar, não fazem parte do momento, desses dias. Os nossos netos, as nossas netas não puderam e nem podem vivenciar estas brincadeiras que já não existem e se perderam no tempo.
Noutra oportunidade darei continuidade com outros temas de brincadeiras.

Minha boneca Suzi com roupa de noiva enfeitando o bolo do meu casamento.

Observação. Reportando-me ao assunto tratado na coluna do dia 23, sobre o livro A vida do bebê, por coincidência esta semana vi na revista Caras uma reportagem sobre o casal Paulo César Grande e Cláudia Mauro, dois conhecidos artistas de novelas, na qual era estampada uma foto dele na cama (mostrada abaixo) lendo o livro objeto do meu comentário. Isso comprova que até hoje A vida do bebê é um livro útil. Que bom! Quiçá outros sigam o seu exemplo.

E-MAISL RECEBIDOS:
Minha admirável Neuma,
É inacreditável o carinho com que você mantém seu acervo fotográfico... Fico encantada com sua sensibilidade e capacidade de registrar bons momentos. Sou grata por poder compartilhar de suas adoráveis lembranças.
Darlene Marques. Juazeiro do Norte
Resposta:
Amiga Darlene, que maravilha você compartilhar do que gosto de fazer, evidenciar lembranças. Continue participando e acessando as relíquias.

Olá, Teresa Neuma
É a primeira vez que me correspondo diretamente com você. Meus escritos sempre são direcionados para Daniel Walker, Renato Casemiro. Mas, isso não quer dizer que eu não tenha admiração por você e pelo o seu trabalho. Mas eu queria lhe dizer que a matéria publicada das fotos do garoto em cinco poses, eu tenho uma exatamente igual e com as mesmas indumentárias: o aviãozinho, o revólver, etc. Tudo leva a crer que tenha sido no mesmo estúdio de fotografia. Eu fiquei emocionado porque perdi a minha querida mãe há sete meses e sei o quanto ela ia adorar ver as cenas destas fotos. Eu ainda tenho o meu quadro guardado com muito zelo. Por ser filho único a minha mãe valorizava muito essas coisas, daí a razão que mexeu um pouco comigo. Parabéns pela matéria. Muito linda. Eu penso que devo começar a mandar algumas coisas pra vocês. Como por exemplo, eu tenho uma máquina de datilografia que ganhei do meu pai na infância, comprada na Aliança de Ouro em 1968. Ela está simplesmente intacta. Em perfeitas condições de uso. Vou enviar a foto para vocês.
Carlos Pontes
Revista Mambembe
Parnaíba-Pi
Resposta:
Oi Carlos Pontes, agradeço o elogio e pode enviar fotos que aproveitarei de acordo com os assuntos.

Um comentário:

Diana disse...

Olá queria Neuma!
Você me fez recordar grandes momentos da minha infância onde também fazíamos muitos guisados aí na Rua São José, eu com as minhas irmãs e vizinhas.
Aos domingos sempre acesso o blog do Jua online, mas, cá para nós, corro logo para a sua coluna, adoro!
Quero agradecer o livro que você nos enviou, e mais ainda a felicidade que temos por fazer parte de sua história.

Um grande beijo a todos e em especial a madrinha Almeida.

Diana Marques Ribeiro Rafael