segunda-feira, 20 de maio de 2013

Juazeiro de luto: faleceu Dona Assunção Gonçalves


Faleceu ontem, às 21h, em Juazeiro do Norte, aos 97 anos (completaria no próximo dia 1º de junho) a conhecida artista plástica e educadora juazeirense Maria Assunção Gonçalves. Com sua morte, o Juazeiro tradicional, aquele do Padre Cícero, de Monsenhor Murilo de Sá Barreto, dos romeiros, da Escola Normal, do Ginásio Municipal Dr. Antônio Xavier de Oliveira e das famílias tradicionais que a conheciam e a respeitavam está de luto, de luto fechado dado a importância da pranteada extinta. 
Seu corpo está sendo velado no Circulo Operário São José. Às 16h haverá missa na Basílica Santuário de Nossa Senhora das Dores e depois o sepultamento no Cemitério do Socorro.
Assunção conviveu com o Padre Cícero em sua fase de adolescente e dele guardou muitas recordações, algumas das quais chegou a publicar como colunista do nosso jornal eletrônico Juaonline. Era pessoa muito dedicada à Igreja, amiga dos antigos vigários de Juazeiro, especialmente do Padre Murilo que a chamava carinhosamente de “Nega”. A ela Padre Murilo confiava muitos serviços da igreja, principalmente a organização da festa do Mês de Maio, pois ela era uma das mais atuantes integrantes da irmandade das Filhas de Maria. Toda terça-feira Padre Murilo almoçava na casa de Assunção, local também de encontro de intelectuais da terra e de fora, todos amigos do Padre Murilo que fazia questão de apresentá-los à grande amiga, como foi o caso do conhecido historiador norte-americano Ralph Della Cava, autor de uma grande obra de referência sobre o Padre Cícero. 
Assunção será lembrada por conta da sua extensa biografia na qual figura como educadora, artista plástica, mestre na arte de confeitos de bolo, ornamentação de noivas (em sua casa ainda tem muitos vestidos de noivas). Era insuperável na arte de receber amigos em sua casa, onde todos que a visitavam eram recepcionados com mesa farta de guloseimas, principalmente bolos e sequilhos além de um café muito gostoso. Infelizmente, quando ficou prostrada numa cadeira, sem ânimo e disposição para conversa, sua casa, antes tão cheia de amigos (amigos?) as visitas foram rareando, restringindo-se aos poucos parentes ainda vivos e pessoas queridas, jovens que ela adotou em sua casa. Mas felizmente alguns verdadeiros amigos nunca a abandonaram e deles ela continuou recebendo o carinho da visita, do afago no rosto envelhecido pelo tempo, do aperto de mão e de uma conversa salutar nas raras vezes em que seu ânimo dava oportunidade. É uma pena, a gente ter de dizer isso, mas é que aqui nesta cidade, as pessoas têm o péssimo hábito de não exercitar a verdadeira solidariedade cristã de visitar os enfermos. Nas muitas vezes em que estive em seu leito de agonia, pude perceber o quanto ela sentia a falta dos amigos de outrora. Como editor do Portal de Juazeiro e durante a fase em que ela estava com a memória ativa, tive o prazer de entrevistá-la muitas vezes, oportunidade em que colhi um bom acervo de informações históricas sobre o Padre Cícero que ela conheceu e da vida do Juazeiro Antigo que ela viu de perto. Outras vezes, porém, e isto foi se ampliando paulatinamente, minhas conversas eram mais com sua fiel escudeira Francisquinha, uma pessoa presente em seu leito de dor diuturnamente, sempre muito solícita, afável, paciente, verdadeiro anjo cuidador. Quem quiser conhecer um pouco mais sobre a vida desta grande mulher temos um blog feito especialmente para ela, o qual pode ser acessado no seguinte link:

BIOGRAFIA
Maria Assunção Gonçalves - Nasceu em Juazeiro do Norte, no dia 1º de junho de 1916. É filha de Francisco Gonçalves de Menezes e Isabel Telles de Menezes. São seus irmãos: Pedro, Joaquim, João, José e Maria Gonçalves, todos falecidos.
Em 1923, Assunção Gonçalves fez seus primeiros estudos com a Profa. Argentina e aprendeu Tabuada com Pedro Vicente, um motorista muito conhecido que residia em sua (dela) casa, na época, localizada no Sítio Logradouro.
Em 1924, estudou com Dona Adelaide de Sousa Melo, e até 1928, no Externato Santa Terezinha, cujas mestras eram Stela Pita e Maria Gonçalves da Rocha Leal.
Em 1929, fez o 4º Ano Primário no Grupo Escolar Padre Cícero, com a Profa. Amália Xavier de Oliveira e o famoso Exame de Admissão no ano de 1930, no Colégio Santa Terezinha do Crato.
Concluiu o Curso Normal na Escola Normal Rural de Juazeiro do Norte. Como professora - são palavras dela - recebi influência dos Professores que muito marcaram minha vida: Mozart Cardoso de Alencar (que lecionava Botânica) e Vicente Xavier de Oliveira (que lecionava Matemática).
Em 1954, substituiu a Profa. Amália Xavier de Oliveira na Direção da Escola Normal Rural, quando a mesma afastou-se por motivo de viagem.
Em 1970, assumiu a Direção do Ginásio Municipal Antônio Xavier de Oliveira, tendo sido fundadora e primeira diretora daquele conceituado estabelecimento de ensino.
Assunção Gronçalves é artista plástica, com estilo e temática, contudo, ê autodidata na arte de pintar. No início desta atividade, recebeu aulas de sua prima, a Professora Amália Xavier de Oliveira, com aquarela, depois passou a pintai a óleo sobre tela.
Foi professora de Pintura no Ginásio Santa Teresinha de Desenho no Ginásio Salesiano São João Bosco.
As telas mais expressivas da artista plástica Assunção Gonçalves são: "Juazeiro Primitivo - 1827", "Padre Cícero", "O Pacto dos Coroneis” e  “As Ceias Largas".
Em sua homenagem foram escritos os livros: "Assunção Gonçalves, uma Grande Educadora" de autoria de Maria do Socorro Lucena Lima e "Assunção Gonçalves, uma Vida Dedicada à Arte" de autoria de Íris Tavares. Foi também homenageada com o "Troféu Sesquicentenário do Padre Cicero" e uma creche e foi nomeada pelo governo do estado como Mestre da Cultura..
Outra homenagem lhe foi prestada pela Telemar que estampou uma das suas telas num cartão telefônico muito divulgado pelo Brasil. Assunção Gonçalves é uma das reservas morais da cidade de Juazeiro do Norte, é um exemplo de honradez, uma pessoa admirada, querida e respeitada por toda a comunidade juazeirense. Noutros termos: Assunção Gonçalves é um símbolo. (Texto de Raimundo Araújo, extraído do seu livro Mulheres de Juazeiro)

MENSAGENS

- Ralph Della Cava:  Queridos amigos,
        A morte da D. Assunção nos traz uma grande dor. Pessoa de bondade sem limites, a contamos como uma grande amiga desde os primeiros dias em que os Della Cavas pisaram na terra de Joaseiro.
        A D. Assunção, a D. Amalia Xavier de Oliveira (de saudosa memória), e a Madre Nely Sobreira se constituiram em nossas 'três Marias' - para assim dizer.
        Para com D. Olga e os nossos dois filhos (o Marco, então de 2 anos, e a Miriám, a Mirka, nascida o mês anterior em Fortaleza), elas não pouparam tempo, companhia e amor. O que foi de grande alívio para este jovem pai de família, engajado na pesquisa sobre o Padre Cícero. Assim, a família estava nas melhores das mãos!
        A D. Assunção teve um especial carinho para a Mirka. Ao partirmos de Joaseiro, rumo a Nova Iorque, no início da primavera de 1964, recebemos dela de presente uma colcha para a neném, com nome bordado nela. Guardámo-la até agora.
        E, com o mesmo carinho ela sempre nos recebia na casa dela. Em 2004 na ocasião da III Conferência Internacional sobre o Padre Cícero, nos festejou com um lauto jantar. Estavam presentes entre tantos amigos e amigas a D. Olga e a Mirka, além do Mons. Murilo. Foi, aliás, a última vez que estávamos junto com ele, ele que me ajudou tanto a compreender a sua pastoral para com os romeiros e a permanência da presença viva do Padre Cícero entre os mesmos durante decênios.
        Na minha última visita que fiz a D. Assunção em 2011 na companhia de D. Olga e o nosso grande amigo, Geová Sobreira, sabíamos que ela estava bastante doente; mesmo assim, ela não faltou em dar-nos um gentil sorriso, o que aceitávamos como símbolo do afeto mútuo que nos unia durante quase meio-século.
        Que seja ela guardada em eterna memória.
        E requiescat in pace.

- Renato Casimiro: O falecimento de Assunção Gonçalves foi muito doloroso. Há, em nós, um sentimento que ela era destas guardiãs que herdamos no afeto para com a história de nossa terra. Era uma referência, não honorária, mas um dom, um privilégio que se alicerçava nas suas origens e se estendia a estas novas
gerações, pelo que fizera em vida e pelo que guardava da memória do povo do
lugar. Pessoalmente, ainda pelos anos 50, eu me encontrava no caminho da
casa da Nêga (pois era assim que minha mãe tratava a querida amiga, desde os
tempos do Grupo Pe. Cícero, de Maria Gonçalves da Rocha Leal, a partir de
1930, e da Escola Normal, de Amália Xavier de Oliveira, entre 1934 e 1938).
Conto para vocês algumas destas impressões que fui anotando, coisas
modestas, mas reveladoras desta marca mais funda que ficou da nossa amizade,
pois cada um de nós, certamente, saberá dar um testemunho amoroso do que
estas relações sempre inspiraram. Peço-lhes desculpas pelo tamanho do texto.
(I)...Maria Assunção Gonçalves, nasceu em Juazeiro, em 01.06.1916. Da sua
origem de família, é o que se pode dizer, a herança vem de um dos troncos
mais fundos do velho Taboleiro: de Francisco Gonçalves de Menezes e de
Isabel Telles de Menezes. Portanto, da gente do Brigadeiro. A casa onde
mora - para mim, ainda o mais charmoso endereço do Juazeiro, já era morada
de sua avó, na chegada do Pe. Cícero ao Joaseiro, em 1872. Para o casamento
de Francisco e Isabel, a casa de taipa e telha foi reformada, mas ainda hoje
guarda o jeitão da velha casa dos patriarcas. Quem chega a esta casa vai
experimentar a sensação de se adentrar num pedaço de sertão, onde se senta
em banco de fazenda, se espicha, dolente, em cadeiras de balanço, se proseia
como se a vida demorasse a passar e se fica enamorado da senhora dona da
casa, eternamente.
(II)...A amizade de Assunção com Doralice Soares Casimiro, minha mãe,
remonta ao começo dos anos trinta, quando ingressaram na velha Escola
Normal. Concluíram ambas, na segunda turma, em 1938. Essa amizade ficou para
o resto da vida de minha mãe, como também a amizade de Maria Germano,
Zuleide Belém, Nelse Silva, Nerci Matos, Venúsia Cabral, Maria Menezes e
tantas outras professoras desta época. Daí, provavelmente, este tratamento
afetuoso (Nêga) que se expunha publicamente no conversar da rua, em casa, ou
quando íamos visitá-la, desde a minha meninice, na agradável casa da Rua
Grande. Na porta se gritava: - Nêga ! E de dentro vinha o convite afetuoso.
Era para se ir entrando e rolar conversa, sem tempo pra terminar. Até hoje,
não fora o meu sumiço do Juazeiro, aonde só vou vez por outra, infelizmente.
(III)...O meu entendimento sobre a grande festa do dia 19 de Março me veio
por um gesto fraterno de Assunção. O dia de São José – o padroeiro do Ceará,
por si só e as esperanças de uma quadra invernosa já bastariam. Mas, este
era também o dia da celebração do nascimento de minha mãe. E, às vezes,
antes de qualquer outra manifestação de parentes e amigos, chegava a
lembrança da Nêga, num requintado bolo de aniversário – presente de todos os
anos, sem faltar. Ela tem esta fama, de uma doceira-confeiteira
incomparável. Degustar aquele bolo era de um prazer imenso. Mais que os
sabores comuns dos ingredientes, ele vinha com o aroma e o doce de um afeto
que se revelava a cada encontro. Minha mãe guardava com muito carinho os
cartões que os acompanhavam. E a assinatura dizia tudo: “Nêga”.
(IV)...Houve tempo, e isto ainda é presente, que ter uma obra do
memorialístico fazer artístico de Assunção era chiquérrimo. Vinham
encomendas de tantos endereços destes Brasis e do exterior. Assunção fez
escola. Ensinou desenho e pintura a muita gente, como o Marcus Jussier, o
Eduardo Matos, Daniel Filho e tantos. Tardiamente, eu despertei para este
prazer de ter uma tela de Assunção na parede. Felizmente, nos meus
recolhimentos posso ficar frente a frente com duas telas suas - um retrato
de Inocêncio da Costa Nick, o Mestre Noza e um busto do nosso santo
padrinho, com os quais ela me presenteou. Depois disso, de uma obra
memorial, todos nós ficamos penalizados com a punição que os médicos lhe
impuseram, pela alergia que os pigmentos das tintas lhe causavam. E teve que
parar de pintar.
(V)...Eduardo Matos, Yony Rodrigues, Gastão Matos e eu tínhamos um encontro
casual na casa de Assunção. Viemos da Escola Normal e, por laços de amizades
entre nossas famílias, éramos ali acolhidos como “sobrinhos” amados. Depois
de 1965, Eduardo, Yony e eu já estávamos estudando em Fortaleza, depois São
Paulo. Então, nas férias nos reencontrávamos. Ela nos convidava para um
almoço e assim ficávamos por longas horas a conversar, contar as novidades,
nossas experiências de vida, sempre com a assistência discreta da Zifina,
fazendo seu tricô, pacientemente. Anos passados, os trabalhos, a vida
profissional de cada um, tudo conspirou e sumimos na voragem do tempo. Mas,
ficaram as lembranças da sua gargalhada gostosa, do seu afeto e da comida
generosa, feito baião de dois, em vaporentas e olorosas panelas.
(VI)...Doceira renomada, Assunção fez bolos e confeitos às centenas. De tudo
se fazia motivo: batizados, crismas, primeiras comunhões, aniversários,
casamentos, formaturas, bodas, tudo. O chique era entregar a tarefa a
Assunção, sempre com o auxílio eficiente de Francisquinha. Interessante é a
lembrança que tenho de que era hábito irmos à casa da Nêga para ter um
gostinho da festa, justo porque não éramos convidados. Ir ver o bolo da
noiva, ou de qualquer evento. Ela nos recebia com carinho e nos mostrava o
que tinha feito, e como tinha feito. Às vezes, uma provinha que ficara no
prato, lasquinhas do bolo, sobras de confeitos. Eram magníficos. O
carpinteiro fazia o esqueleto em taliscas e compensado de madeira e por
sobre o bolo crescia um verdadeiro monumento. No fim, ninguém sabia o que
seria maior, se a “boleira”, se a confeiteira, se a artista.
(VII)...Na organização do III Simpósio Internacional (2004), sob a
presidência de Mons. Murilo de Sá Barreto, Maria do Carmo Pagan Forti nos
apareceu com a idéia de incluir a presença de Maria Assunção Gonçalves como
conferencista de uma das datas. No início eu fiquei baratinado porque tinha
a lógica voltada para a presença dos convidados estrangeiros e de gente de
várias academias universitárias do país. Mas, a Maria percebeu, de longe e
muito mais adiante que nós, que era o momento de levar a Nêga para um grande
encontro com a memória do Juazeiro. E foi o que aconteceu. No dia, me
concederam o privilégio de coordenar a mesa e fiquei tão emocionado que não
soube fazer quase nada. O tempo, então, foi todo atropelado. Assunção deu um
show e aquele dia foi um dos grandes momentos do III Simpósio.
(VIII)...Das grandes tristezas que pude presenciar na vida de Assunção, a
mais marcante foi o cortejo fúnebre de Mons. Murilo, chegando ao Santuário
Diocesano, na manhã do dia 5 de dezembro de 2005, durante o longo velório. A
cidade inteira descia a Rua Pe. Cícero para recebê-lo na Matriz. Passando na
calçada da casa de Assunção, não resisti e entrei, indo encontrá-la,
desolada. Lembro de seu pranto angustiado, reverenciando o amigo, da janela
da casa, em foto que foi parar no jornal.  O dia seguinte, o do
sepultamento, foi uma terça. Certamente a mais triste de todas as terças
feiras de seus calendários. Naquele dia, como a longos anos, faltaria o seu
principal conviva do almoço tradicional. No dia 29.11.2005, a terça
anterior, havia um certo clima de apreensão pela cirurgia anunciada. Apesar
dos temores, ninguém acreditaria no que se veria, na terça seguinte.
(IX)...Quando o Memorial Padre Cícero estava para ser inaugurado, o então
prefeito municipal, Manoel Salviano Sobrinho, nomeou uma comissão da qual
faziam parte Assunção Gonçalves, e outras pessoas. Tínhamos que fazer
sugestões, trabalhar para obter doações de famílias, visitar pessoas, dentro
e fora do Juazeiro, e disciplinar uma organização para o acervo do museu do
Memorial. Numa oportunidade, Assunção veio a Fortaleza e, então,
acompanhei-a em duas visitas: a dona Edite Figueiredo, viúva de Odílio
Figueiredo, e a dona Stela Pita, viúva de Antonio Gonçalves Pita. Pela
mediação de Assunção estas famílias contribuíram com ótimos donativos:
preciosos objetos oriundos da casa do Pe. Cícero, e que hoje podem ser
encontrados em exposição no Memorial. Foi para lá também um conjunto
maravilhoso de seu ex-aluno, Marcus Jussier.
(X)...Daniel Walker e eu iniciávamos, nos anos 60, através da organização do
Arquivo Fotográfico de Juazeiro, um trabalho de resgate da memória histórica
da cidade e Assunção nos ajudava muito com informações. Nestas visitas,
aprendemos que, se havia alguém que pudesse ser denominada de Guardiã da
Memória do Juazeiro, esta seria Assunção. Mas, uma coisa sempre nos deixava
intrigado. Assunção nos falava muito da Escola Normal Rural, de coisas que
tinha entre os seus guardados e isso tudo não nos aparecia, a não ser
preciosas fotografias espalhadas pelas paredes da casa. Um dia, depois de um
daqueles almoços de férias, ela abriu um velho baú e eu pude me deliciar com
velharias de jornais, fotos, documentos, revistas, livros, objetos e tantas
coisas raras. Mas, o fundamental já tinha sido descoberto: Assunção era a
própria memória viva do Juazeiro.
(XI)...Por longos anos, a dedicação de Assunção à Paróquia Matriz de Nossa
Senhora das Dores foi coisa comovente. Nada de importante havia que a Nêga
não estivesse entre o entusiasmo e a realização, passando pelo angariar de
recursos que ela fazia e faz com a simpatia de quem, por ela, haveremos de
ter uma boa recompensa nos céus. Nos anos 50, a artista fez um painel
maravilhoso, retratando a nossa Mãe das Dores. No leilão tradicional da
festa da padroeira a peça foi arrematada por devotos de Atalaia, romeiros
alagoanos como metade do mundo do Juazeiro, com a promessa de trazê-lo, todo
ano. A cada novo Setembro, lá vinha o caminhão, com o painel à frente,
abrindo solenemente a romaria. Algumas vezes Assunção fez reparos e retoques
no painel. Até que um dia ela os liberou de trazê-lo. Mas, mesmo assim, eles
continuaram trazendo.
(XII)...Em 1963, no terceiro ano ginasial, Assunção foi nossa professora de
Desenho, apenas por um semestre. Acredito que tenha sido convidada pela
iniciativa dos padres Mário Balbi (secretário) e Gino Moratelli (diretor),
do Ginásio Salesiano. Era muito pouco, apenas uma aula por semana, e durava
uma hora. Eu achava aquela aula um espetáculo, à parte. Assunção chegava,
carregada de instrumentos (compasso, transferidor, réguas, escalas, etc) e
dava uma aula magistral. Havia nos seus procedimentos uma elegância de
artista. O quadro se enchia de traçados geométricos, multicoloridos que nos
atraia muito. Alguns da turma não engrenaram bem com a professora e por
várias vezes procuraram tumultuar a aula, dispersando a atenção. Mas, só sua
presença em sala já comunicava uma autoridade que se fazia respeitar.
(XIII)...Não seria admissível que personagem tão rica de valores humanos e
de tão grande significação no memorial de nosso desenvolvimento, como
moradores deste Juazeiro de sua maior emoção, não tivesse sua vida exposta
em livro, por mais modesto que fosse. Assim pensando, Íris Tavares e Socorro
Lucena tiveram a sensibilidade de escrever-lhe duas pequenas obras. Íris
privilegia sua narrativa sobre a artista plástica, de esmerada habilidade
nos pincéis. Socorro releva a grande educadora, a professora que já se
iniciara, vocacionada, aos 13 anos. As duas, penso e não manifesto aqui
nenhuma crítica, foram tímidas em suas produções. Contudo, deixaram as
pistas para uma grande obra. Quem sabe, um  estudo biográfico de prospecção
mais funda, ou até mesmo uma obra de ficção que percorra o itinerário de
seus personagens, amigos e familiares, das velhas raízes.
(XIV)...Na administração municipal de seu amigo José Mauro Castelo Branco
Sampaio, Assunção foi convidada e aceitou dirigir o primeiro ginásio
municipal da cidade, o Antonio Xavier de Oliveira. Foram quatro anos de uma
administração exemplar, entre 1970 e 1974. O seu largo tirocínio adquirido
em anos de vivência com a ENR, onde foi professora competente, secretária
eficiente e vice-diretora de grande lealdade, transformou esta experiência
numa tarefa prazerosa, como ela reconhece ao nos falar deste tempo. Os
professores que trabalharam ao seu lado neste período são unânimes em dizer
o quanto a liderança de Assunção os inspirou para que aquela primeira
iniciativa de uma gestão municipal fosse vitoriosa, legando a esta cidade
uma das mais promissoras casas a serviço de nossa educação.
(XV)...No aniversário de Assunção, por anos a fio, sua casa é invadida por
um grupo de senhoras de origem comum e de grande estima pela aniversariante.
São as confreiras de várias associações religiosas. São, principalmente, do
Apostolado da Oração, da Liga de Santa Terezinha e da Pia União das Filhas
de Maria. Elas não esquecem esta data. Chegam, presenteiam, se
confraternizam, deixam que a conversa role ao sabor das últimas novidades,
as perdas e danos e se deliciam com os bolos, biscoitos e refrigerantes. Aí
refazem o que mais agrada à nataliciante: renovam toda a grande estima que
há com estas pessoas que vem da cidade e dos sítios. Depois disto, já estão
de volta às suas origens. Nos outros meses do ano, encontros casuais, aqui e
acolá. Muitas se cobram e fazem uma visitinha à Dona Assunção. No ano
seguinte, novo cortejo. Elas não faltam, nunca.
(XVI)...Uma galeria de afeto ! É assim que posso traduzir as paredes da casa
de Assunção. Por elas estão espalhadas fotografias e telas que consagram o
grande amor de sua existência por entre pessoas da família ou fora dela,
gente de saudade como Zifina, o Pe. Frederico, Marcus Jussier, Dedé (José
Xavier de Oliveira), Bibi (Umbelina Xavier de Oliveira), a prima “Amada”
(Amália Xavier de Oliveira), Nilde, Pe. Jésu Flor. E também aquelas
queridíssimas criaturas, hoje mais raras como Rici e Jussier, e Neli
Sobreira. Logo na entrada, pelo corredor, uma peça de museu – o quadro
comemorativo da segunda turma de professoras formadas pela Escola Normal.
Uma bela alegoria, em forma de uma árvore que deu bons frutos e deixou para
o velho Juazeiro uma seleção de nomes que seria reconhecida pelos tempos e
que teve em Assunção a mais feliz das representantes.
(XVII)...Com requinte, como lhe era devido – individual, bom espaço,
catálogo, temporada e tudo mais, Assunção só teve mesmo uma grande
exposição, realizada no Memorial Pe. Cícero, a que se deu o nome de Óleos
Eternos, com apresentações de Marquinhos (Marcus Jussier Maia de
Figueiredo), Sávio Leite Pereira e Íris Tavares. Jean Nogueira concebeu o
projeto e fez a produção, numa realização da Secretaria de Cultura e
Desporto, na administração de Manoel Salviano Sobrinho. No catálogo, Sávio
Pereira relevava que “a exposição de Assunção Gonçalves era o resgate de um
sentimento de dívida de toda a comunidade juazeirense, unânime em reconhecer
os méritos artísticos da notável conterrânea, única em proclamar a beleza
das cores e dos traços que resultam do trabalho inspirado do talento de mãos
e pincéis que expressam o universos introspectivo da artista.”
(XVIII)...A Criadora e a Criatura. De Assunção para Marcus Jussier, e
vice-versa, só nos lembraremos de palavras, se ouvidas, de queridos
enamorados. Foi assim: primeiro foi a imensa amizade, até hoje, entre
Assunção e Rici Maia, que casou com Jussier Figueiredo, que foram os pais de
Marcus Jussier, que morou bons anos em frente à casa da Nêga, com quem
aprendeu a pintar. Mesmo nas horas em que tinha de dizer alguma coisa sobre
a arte de Assunção, falava o coração: “Sobre você, Assunção, tenho obrigação
de dizer que falo em primeiro lugar com a linguagem do amor e essa não tem
palavras, mas sentimentos. Lembro-me quando criança, que do espaço branco de
uma tela você fazia mágicas e milagres”. Quando o Marquinhos morreu, tão
jovem, rolaram lágrimas doloridas pelo rosto de Assunção, num sofrimento de
quem perdia um filho.
(XIX)...“Era uma vez uma professora que pintava e bordava.” Assim, Socorro
Lucena se refere a Assunção em seu ensaio biográfico, com expressão de
grande felicidade. Os títulos, ah!, os títulos. Mais um para se recordar a
Nêga, ligada também a uma almofada, eternizada também em foto clássica para
a posteridade, com um fundo que lembra a herança de Bibi, e das matriarcas
da família. O fato é que Assunção é também uma grande artista nos bilros.
Não raras vezes, entrando em sua casa apressadamente se podia flagrar a sua
agilidade no manejo das peças, um balé sonorizado por entre ágeis mãos de
uma rendeira deste sertão do Ceará. Peças lindas, presentes encantadores,
como o que Olga della Cava levou para New York, ou o que foi parar em
detalhes de roupas finas de gente amada. Sei lá, por aí: Europa, França e
Bahia.
(XX)...“Era só o que faltava !” disse a mim mesmo quando soube que Maria
Assunção Gonçalves se envolvera com o grupo do elenco de figurantes da
produção cinematográfica de Hélder Martins – O Patriarca de Juazeiro, em
1974. O filme começou a ser rodado aqui em Fortaleza e depois a equipe
migrou para Juazeiro e Milagres. Assunção vestiu-se de preto, lenço na
cabeça, maquiagem de estrela, para um personagem popular, misto de romeira e
beata – e lá estava nas cenas que víamos aqui, em prévias exibições do
“copião”. Fez muita coisa para ajudar à produção, grande amiga do elenco,
especialmente do fotógrafo José Medeiros, e não deixou de dar um pouco do
seu próprio suor e sangue. Tanto que contraiu uma pneumonia, pois não se
esquivou de, literalmente, carregar pedras em procissão, em cena noturna de
grande comoção no set de filmagem.
Talvez, um dia eu volte a completar tantos apontamentos que fiz ao longo
destas inesquecíveis viagens à casa alegre e festiva da Rua Grande.
Por uma gentileza de Camilo Sobreira, neto de uma das melhores amigas de
Assunção, Neli Sobreira, me foi possível ir ao seu funeral. Estava cercando
seu caixão uma gente que sofria naquela despedida a perda de uma amiga, como
poucas. No cemitério, quando fecharam a lápide, eu senti um cheiro forte de
flores silvestres que tomou por uns minutos a atmosfera do campo. Já era
noite. Para quem for um dia visitar e fazer uma oração por seu repouso
eterno, será muito fácil localizar seu jazigo: fica entre os do beato José
Lourenço e do prof. José Marrocos. Companhias maravilhosas para quem também
viveu o milagre do Joaseiro.
Com grande afeto, por todos,

- Assunção Gonçalves e sua grande arte de se fazer amada
Passou por esta vida terrena Assunção Gonçalves, como se fosse um rastro de luz. Mas que tanto ensinou Assunção Gonçalves, na sua simplicidade de menina, criada por Zifina, acompanhada pela família Xavier de Oliveira e o Padre Cícero?

Ema cada parte da vida uma mediação entre a artista e a educadora viabilizam uma obra de arte, pintada com as cores da amizade e saboreadas na alegria do pão partilhado.

Criança, com autonomia de gente grande, nesse tempo já dava aulas para ajudar em casa. Pintando bordando, cantando e fazendo amigos enfrentou os desafios que lha chegavam, estudando e ensinando que a vida é uma arte tecida de lutas e de sonhos de desafios e esperanças. Aprendemos com ela, desse tempo, o cuidado, não apenas com a caligrafia desenhada em perfeição, mas o cuidado com uma arte maior chamada respeito pelas pessoas.

A jovem Assunção se torna uma trabalhadora da educação, prestando serviço na Escola Normal de Juazeiro do Norte. Mas ela não lecionava apenas o que tinha nos livros, ela ensinava a arte da convivência, da gentileza, da ética humana. Na a Igreja católica sua atuação sempre foi marcante como devota e colaboradora nas Associações e devocionários.

Em sua maturidade, Dona Assunção se destaca como a formadora de novos professores, a Diretora do Ginásio Municipal Antônio Xavier de Oliveira, na coordenação dos movimentos da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores. Aqui aprendemos com ela a arte da liderança da valorização do trabalho das pessoas.

Na velhice, Assunção, senhora guardiã da história do Juazeiro, da luta pelo reconhecimento da santidade do Padre Cícero pela Santa Sé, tinha as portas da sua casa sempre abertas para receber representantes do clero, historiadores,  pesquisadores, alunos, romeiros e tantos que demonstrassem interesse de saber sobre esta terra e sua gente. Tornou-se contadora das histórias de Juazeiro, em sua cadeira de palhinha, cercada dos cuidados de Francisquinha e das memórias estampadas nos quadros da parede da sua casa. Assim ensinava a arte do acolhimento e da amizade.

Assunção hoje se despede de nós, com suas mãos de luz, que pintou, bordou, confeitou, liderou, serviu à Igreja, ensinando principalmente a arte de amar a Deus, às pessoas, ao trabalho, à vida. Deixa um legado de lições cada vez mais raros no mundo de hoje. Que sejamos aprendizes dessas lições e que saibamos contar esta história.

Sem mais poder andar, cantar, pintar, nem rendas de birros, confeitar, nem contar histórias, em sua solidão ensinou mais uma vez a arte da espera e da gratidão. Na última vez que estive em sua casa, quase inaudível, Assunção balbuciou: OBRIGADA! Penso que é isso que ela está nos dizendo neste  momento.
A amiga e sempre aprendiz da sua sabedoria:
Maria Socorro Lucena Lima

Juazeiro de luto
- Cícero Braz: Morre dona Assunção Gonçalves, artista plástica que pintou Juazeiro na época do Tabuleiro Grande. Nossa singela homenagem a ela, pois todos os anos nosso grupo "folia de reis", sempre era esperado com carinho na sua casa. Então cantemos: Silene Ratts Maria Barbosa, Rodrigo Menezes, Aline Menezes, Rafael Menezes, Ruanna Menezes, Celia Morais, Cicero Braz de Almeida, Eduardo Allan Callou, José Hugo Rodrigues, Kelly Menezes," ó senhor, dono da casa, abra a porta e ascenda a luz, abra a porta e ascenda a luz, pelo nosso de Jesus. aqui estamos em vossa casa, em figuras de raposa, em figuras de raposa, nós queremos qualquer coisa". .............fica com Deus e o Padre Cícero aí no céu minha amiga.














- Iderval Reginaldo Tenório: Amigos do Juazeiro do Norte, mais uma página desta cidade foi encaminhada para o seu valioso arquivo, arquivo este indispensável para a vida de uma comunidade.
A professora Assunção Gonçalves continuará viva nas suas palestras, nas suas aulas, nos seus ensinamentos, nas suas telas, nos seus escritos, nas suas palavras, nas suas organizações, na sua paciência e no seu exemplo de vida.
Assunção Gonçalves não morreu e jamais morrerá, Assunção Gonçalves tal qual os grandes pensadores deste mundo , hoje é uma imortal, partiu sem pedir para partir, partiu deixando órfãos uma plêiade de admiradores por todos os recantos do mundo. Neste momento estou de frente a uma de suas artes, uma tela em veludo, na qual retrata o rosto de Jesus .
O Brasil está de luto, nós Juazeirenses estamos de luto.
Amigos Daniel Walker e Renato Casimiro, Deus sabe o que faz, Assunção fará muita falta, Juazeiro perdeu parte de sua vida. Assunção neste momento para o Município, era a sua maior expressão viva cultural , era o maior símbolo cultural, era o maior troféu do Juazeiro do Norte e uma pessoa com esta importância não pode simplesmente morrer por morrer, Assunção ficará para a eternidade. Espero que a nossa geração, a geração atual e a geração do futuro saiba qual o real valor desta professora , que durante 60 anos pregou o que existe de mais sublime para uma sociedade- A CIDADANIA.
Eu sou muito grato à minha amiga, mestra, orientadora, incentivadora e Professora Assunção Gonçalves. Juazeiro do Norte saberá reconhecer o seu valor e lhe será eternamente grato.
- Maria Neide Pereira: D.ASSUNÇÃO LINDO CORAÇÃO DE DEDICAÇÃO AO PADRE CICERO E A CIDADE DO PADRE CICERO!!!!! LEBRE-SE DE TODOS NÓS DO JUAZEIRO QUANDO SE ENCONCONTRAR COM JESUS E NOSSA SENHORA DAS DORES.
- Ana Gonçalves: Grande cidadã juazeirense ! Lamentamos sua perda .
- Francisco Sampaio: Mulher que pintou o Juazeiro.
- Elias Romeiro: Abalado e triste com a Romaria Eterna de Assunção que Mons. Murilo chamava carinhosamente de 'Nêga". Até o Céu artista de Deus!
- Josmacelio Geraldo da Silva: Deus a tenha! Grande baluarte da cultura juazeirense, contadora da história de Juazeiro, grande mulher.
- Fátima Feitosa: O Juazeiro perde uma grande mulher.
- Maria Araujo de Barros: As pessoas de bem que muito fizeram por Juazeiro só passam a ter valor depois de morta,sei que perdemos duas grandes mulheres.
- Lucíola Anselmo: D. Assunção Gonçalves, uma pessoa muito importante da história de n/ Juazeiro ... Que Deus dê o descanso eterno..
- Cicera Lobo: QUANDO FAZIA O NORMAL FIZEMOS UMA ENTREVISTA COM ELA,UMAS DAS PESSOAS MAIS INTELIGENTES E MEIGAS QUE JÁ CONHECI.EU LEMBRO ATÉ HOJE QUANDO CHEGAMOS NA CASA DELA ELA TAVA PINTANDO UM QUADRO EU FIQUEI ENCANTADA COM SUA PINTURA.
- Savia Maria Ferraz: Grande educadora, artista plastica, figura humana que costumava apaziguar os ânimos ,amiga , grande conhecedora´e divulgadora da história do Pe. Cicero!Que Deus a tenha.Meus sentimentos de pesar ao povo de Juazeiro e toda a sua família.
- Itamar Aguiar: Grande mulher e educadora. Foi minha professora de pintura na minha adolescência... que Deus a guarde.

-Eduardo José Pereira de Matos: Partiu para eternidade mais um grande ícone da história ciceropolitana. Será bem acolhida pelo Pai.
-Elizete Marques ELi Marques: DESCANSARÁ EM PAZ UMA GRADE MESTRA DA TERRA DO PADRE CÍCERO.aria Eliane de Almeida Mulher, cidadã, artista, D.Assução será sempre um orgulho para o Juazeiro.
- Maria Do Socorro Romão Descanse em paz D.assunçaõ.me deleitava ouvindo suas histórias sobre o juazeiro ,sobre Padre Cícero.
- Vasques Landim: QUE DEUS A TENHA EM BOM LUGAR. ARTISTA E GRANDE EDUCADORA. FORMADORA DE OPINÃO E INCANSÁVEL DIVULGADORA DA HISTÓRIA DO PADIM CIÇO. NOSSOS SENTIMENTOS DE PESAR A FAMÍLIA.
- Socorro Farias: Que Deus a tenha em bom lugar.
- José Erivaldo Teles: Mais uma pessoa ilustre vai morar com DEUS, mas fica conosco muitas páginas de sua HISTÓRIA, dedicada a vida artística e eligiosa
- Carmen Lúcia Tomás Bezerra: também tive o prazer de entrevistar Dona Assunção algumas vezes. Contou-me certa vez sobre as suas brincadeiras de criança. Sorriu muito se balançando numa rede e contando do que gostava de brincar.
- Ana Lucia Granja Souza: Poxa, Daniel, estou muito sentida com a morte de dona Assunção Gonçalves, tinha um imenso desejo de conhecê-la e ouvir suas histórias. Mas Deus a chamou e Ele sabe o que faz. Fique bem, meu amigo, eu sei que ela é e foi uma pessoa muito importante.
-  Pe. João Carlos Perini: Fiquei muito triste pela morte de Dona Assunção. Esperava pudesse ver a Reabilitação de Padre Cícero. Pra mim foi uma verdadeira mãe. Varias vezes almocei com ela e depois me preparava uma rede no último quarto para descansar... uma grande mulher, livre, bonita dealma e simpática e acolhedora. Quando você me levou a sua casa a última vez ela ficou tanto contente de me ver!
Fotos do Sepultamento
 VEJA VIDEO SOBRE A MORTE DE ASSUNÇÃO GONÇALVES NO LINK ABAIXO:
http://globotv.globo.com/tv-verdes-mares/cetv-1a-edicao-juazeiro-do-norte/v/artista-plastica-assuncao-goncalves-e-sepultada-no-cariri/2586976/

MISSA DE 7º DIA DE DONA ASSUNÇÃO GONÇALVES
25 de maio de 2013

Homilia

Queridos familiares e amigos, distintas autoridades aqui presentes, professores, educadores, meus irmãos no sacerdócio que concelebram esta santa missa (...), diletos irmãos e irmãs!
Com pesar e confiança, estamos reunidos nesta celebração da Páscoa definitiva de nossa querida irmã Dona Assunção Gonçalves.
Inicialmente recordamos o sentido de celebrar o sétimo dia. Foram sete os dias precisos para que Deus considerasse finda a obra amorosa da criação do mundo. De fato, a criação não estava completa ao sexto dia, quando Deus criou o gênero humano, pois, na verdade a criação encontra a sua finalidade ao sétimo dia, com a glorificação de Deus.
Irmãos e irmãs! Não é neste mundo que reside o sentido mais profundo de nossa vida. A criação de Deus, só pode encontrar a sua referência final em Deus. É na glória d’Ele, o Pai que tendo amado tanto o mundo enviou o seu filho unigênito, que todos os projetos e todos os sonhos se realizam plenamente.
A morte não é uma realidade de desesperança, mas é um impulso final em direção a Deus. É a porta misteriosa pela qual todos passaremos rumo àquela luz inacessível onde habita Deus. É a morte, um breve episódio para que possamos encontrar a certeza da vida eterna, almejada por todos nós e assegurada pelo nosso Deus. Apeguemo-nos às palavras de Santo Agostinho, que diz: “Minha alma não está em paz enquanto não Vos encontra Ó Deus!”.
Olhando com outros olhos, caros irmãos e irmãs, a reflexão que esta celebração nos apresenta é a reflexão acerca da esperança. Somos chamados à esperança. Nossa fé cotidianamente nos convida a uma esperança que não aliena. Não estamos nos referindo a qualquer esperança, mas à esperança em Deus. A espera do Reino de Deus de forma definitiva, em plenitude.
Só precisamos rezar e aguardar a vida eterna. Caminhamos em busca de mais vida. É esta esperança que nos invade quando hoje fazemos memória de nossa irmã, Dona Assunção Gonçalves. Uma criatura de Deus repleta de dons. Dons que ela não guardava unicamente para si, pois sabia o sentido da partilha, compartilhando seus talentos e virtudes com todas as pessoas que, assim como ela, souberam e sabem o que é ter um coração bom.
Irmãos e irmãs caríssimos, ouvimos a pouco no santo evangelho: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo!”. A nossa fé nos assegura que Deus chamou Dona Assunção para a eternidade, pois ela era uma mulher bendita, fiel e temente a Deus.
Como filha de Maria aqui mesmo nesta Paróquia, uma competente e brilhante artista plástica, educadora, mulher solidária e de inúmeras qualidades, uma pessoa que no passado também foi muito próxima ao querido Padre Cícero, soube carregar consigo tantos e bons adjetivos, e, como consequência, soube ser uma feliz resposta da boa notícia de Deus. Não há dúvidas de que as afirmações que escutamos com o evangelho desta santa eucaristia encontraram morada na pessoa de Dona Assunção Gonçalves.
A este respeito, recordemos as palavras de São Paulo aos Romanos, durante a primeira leitura para nós proclamada nesta liturgia: “Ninguém dentre nós vive para si mesmo ou morre para si mesmo. Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor”. Dona Assunção Gonçalves, em sua vida quase centenária, nunca viveu unicamente para si. Suas palavras e exemplos, suas atitudes nos mais diversos de seus afazeres sempre retrataram a certeza de que a sua vida era de Deus e sendo de Deus, era colocada a disposição de quem precisasse.
Diletos irmãos e irmãs! Recorrendo aos dotes artísticos de Dona Assunção, diante de tantas de suas obras, assim como ela registrou para os anais de nossa história, a famosa e propagada imagem do Juazeiro antigo, hoje, Juazeiro registra em sua história a sua prestigiosa colaboração como cidadã que passou a vida contribuindo para o progresso e desenvolvimento de nossa terra e de nossa gente.
A nós, sobretudo aos seus familiares e amigos, fica a lembrança muito forte de seu testemunho de vida. Sua memória nunca será deixada de lado, pois os seus frutos sempre acompanharão a história de nossa querida Juazeiro do Norte. É incontestável a larga contribuição que Dona Assunção Gonçalves deixou na arte, na educação, na igreja e na própria história da nossa Juazeiro.
Resta-nos ainda apresentar a Deus uma prece: se, aqui na terra, no tempo e no espaço ainda somos morosos demais para autenticar a nossa fé com os sinais de santidade do nosso querido padrinho Padre Cícero Romão Batista, que ela, Dona Assunção Gonçalves, mulher guerreira, defensora dos romeiros e das nossas romarias, esteja agora no céu, com as cores da eterna vida, colorindo um bonito resplendor num chapéu de palha também bonito, para enfeitar a cabeça do nosso padrinho e patriarca, uma vez que a auréola da santidade que lhe falta aqui já se encontra pertinho de Deus. Eis a forte inspiração que tanto Dona Assunção Gonçalves almejou nesta vida, agora ela a encontra em profusão ao lado de Deus.
Antes, Dona Assunção Gonçalves era apenas uma guardiã da história do Juazeiro e da luta pela reabilitação do Padre Cícero. Hoje, nossa fé nos leva a crer que, lá no céu, o seu ideal de vida intercede por nós, pelo progresso de Juazeiro e pela felicidade dos seus familiares e amigos.
Na oração que antecede a oração eucarística desta santa missa, ouviremos que “para aqueles que creem a vida não é tirada, mas transformada e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado um corpo imperecível”. Que a vida imperecível de Dona Assunção Gonçalves, inteiramente transformada, seja acolhida em sua nova morada, a morada celeste, com a presença amiga do Monsenhor Murilo, da Ir. Ana Teresa, do querido Padre Cícero e de tantos outros que fizeram parte de sua vida aqui neste mundo, em seu Juazeiro que era o seu universo.
Para a “Nega”, como ela era conhecida pelos mais íntimos, ficam ainda outras oportunas palavras de São Paulo, também aos Romanos e hoje a nós: “todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os seus eleitos, segundo os seus desígnios”. Em meio a esta verdade de fé, suplicamos: Dona Assunção Gonçalves, descanse em paz!
Não temos o seu talento, tampouco o mesmo pincel e tino para a arte, no entanto, mesmo assim ficaremos a pintar em nossos corações a grata lembrança de sua vida inteira neste mundo. Que Nossa Senhora das Dores, sua carinhosa auxiliadora junto de Deus e do Padre Cícero, continue a rogar a Deus por nós, amém!
Padre Aureliano de Sousa Gondim
Vigário Paroquial da
Basílica Santuário de Nossa Senhora das Dores

Um comentário:

IDERVAL TENÓRIO disse...


Amigos do Juazeiro do Norte, mais uma página desta cidade foi encaminhada para o seu valioso arquivo, arquivo este indispensável para a vida de uma comunidade.
A professora Assunção Gonçalves continuará viva nas suas palestras, nas suas aulas, nos seus ensinamentos, nas suas telas, nos seus escritos, nas suas palavras, nas suas organizações, na sua paciência e no seu exemplo de vida.

Assunção Gonçalves não morreu e jamais morrerá, Assunção Gonçalves tal qual os grandes pensadores deste mundo , hoje é uma imortal, partiu sem pedir para partir, partiu deixando órfãos uma plêiade de admiradores por todos os recantos do mundo. Neste momento estou de frente a uma de suas artes, uma tela em veludo, na qual retrata o rosto de Jesus .

O Brasil está de luto, nós Juazeirenses estamos de luto.
Amigos Daniel Walker e Renato Casimiro, Deus sabe o que faz, Assunção fará muita falta, Juazeiro perdeu parte de sua vida. Assunção neste momento para o Município, era a sua maior expressão viva cultural , era o maior símbolo cultural, era o maior troféu do Juazeiro do Norte e uma pessoa com esta importância não pode simplesmente morrer por morrer, Assunção ficará para a eternidade. Espero que a nossa geração, a geração atual e a geração do futuro saiba qual o real valor desta professora , que durante 60 anos pregou o que existe de mais sublime para uma sociedade- A CIDADANIA.

Eu sou muito grato à minha amiga, mestra, orientadora, incentivadora e Professora Assunção Gonçalves. Juazeiro do Norte saberá reconhecer o seu valor e lhe será eternamente grato.
Iderval Reginaldo Tenório