domingo, 10 de abril de 2016

PEDRA DO JOELHO - Por Geová Sobreira

Moradores do Horto fazendo a lavagem
da pedra do joelho
Cientistas sociais, pesquisadores e historiadores dos movimentos religiosos populares são unânimes, quando analisam as romarias dos devotos do Padre Cícero, em acatar as referências do imaginário popular que afirmam ser Juazeiro a "Nova Jerusalém", "Terra da Promissão" e a "Roma dos Pobres". E todos confirmam, com base em pesquisa própria e respaldada em dados estatísticos consolidados pelo IBGE, o crescimento quase geométrico das romarias ao Juazeiro, atraindo romeiros não só dos sertões nordestinos, mas de todos os Estados do Brasil. As romarias a Juazeiro igualam-se ou até já superam em número de devotos as romarias ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil.No entanto, as romarias ao Juazeiro contém certas características de rico sincretismo cultural e religioso que lhe peculiares com seus rituais próprios e que não se confinam numa visita a santuário ou basílica nem em qualquer lugar fixo. Em Juazeiro o passado e o presente coabitam e há o envolvimento com o sagrado e com os mistérios da Terra da Mãe de Deus onde os romeiros desempenham papel fundamental na configuração mito-poético do Juazeiro como Cidade Santa, Porto de Salvação e Terra Prometida. Na geografia sagrada dos romeiros o Horto condensa de maneira maravilhosa todo o encantamento de Juazeiro, como Cidade Mística. Galgar as ladeiras da Rua do Horto em peregrinação é uma experiência marcante para todo romeiro, peregrino ou mesmo para o aprendiz de turista: as 14 Estações da Via Crucis, as casas das beatas, oficinas de artísticas e artesões e no platô da Colina a Estátua-Monumento do Padre Cícero com seu longo cajado de bom pastor protegendo e abençoando sua cidade, seus romeiros e todo o Vale. Há o Museu Vivo do Padre Cícero, e um pouco além está fonte de Siloé onde o romeiro vai beber água e até encher garrafas d'água para levar para parentes e amigos lembrando a passagem do Evangelho quando Jesus diz: "quem beber dessa água não terá mais sede". Um pouco mais distante está o Monte Sinai e o Santo Sepulcro com suas encantadoras capelas construídas ao longos anos pelos beatos. Há também na última ladeira da Rua Horto, antes do acesso da Colina do Horto, um inquietante e encantador monumento geológico: um sólido bloco de granito, com idade geológica superior a 100 milhões de anos. Nesse bloco de granito estão perfeitamente gravados um joelho, um pé de criança recém-nascida e na parte lateral desse bloco de granito marcas profundas da região lombar de um adulto. A crença popular romeira acredita que as marcas da região lombar de um adulto são das . costas de São José, o joelho é de Nossa Senhora e a marca de pé de uma criancinha é do Menino Jesus. O surealismo-fantástico da literatura de cordel conta que naquela pedra "Nossa Senhora lavou os paninhos do Menino Jesus".Conta a tradição histórica que o Padre Cícero, depois de um dia de intenso trabalho, subia à noite a Colina do Horto para rezar e meditar. Era uma caminhada atípica: o beato José amarrava na cabeça um candeeiro com pavio longo e protegido dos ventos por uma "manga" para não se apagar e ia puxando em passos lerdos o cavalo enquanto o Padre Cícero rezava ou cochilava. No entanto, quando chegava à pedra do joelho o beato José parava o cavalo, ajudava o Padre Cícero a se apear e ele então se ajoelhava diante do bloco de granito e beijava com profunda devoção o pequenino pé gravado na rocha de granito.Surpreende a todos os estudiosos das Ciências Políticas a riqueza do real-maravilhoso que tece e condensa o encantamento de Juazeiro com seu vasto e difuso sincretismo religioso e cultural criando uma própria geografia sagrada transformando a cidade numa centralidade do espaço sagrado de salvação e bênção. O conjunto de valores do imaginário baseia-se num tripé de alumbramento: "o chamado" (sonho profético do Padre Cícero) - "a graça" (fatos maravilhosos ocorridos com a beata Maria de Araújo) e "a luta" a guerra de 1914 quando Juazeiro vence as forças do mal). Assim, Juazeiro eleva-se como centro do mundo e a Roma dos pobres.No entanto, é lamentável o descaso, a incúria, o abandono do seu valioso e sagrado patrimônio imaterial e o riquíssimo "ativo intangível" de Juazeiro. As autoridades civis e eclesiásticas, ao longo dos anos, não zelam e até desprezam todo o patrimônio imaterial e seu "ativo intangível" e se não fosse a dedicação dos devotos do Padre Cícero grande parte desse patrimônio já teria sido pedrado por mãos de vândalos acobertadas por administradores ineptos e inúteis e pelas autoridades eclesiásticas que têm até vergonha das práticas religiosas dos romeiros e só se interessam pelos óbolos e esmolas deixadas pelos romeiros.Clama por proteção a Pedra do Joelho - um verdadeiro monumento milenar de bloco de granito e espaço sagrado da devoção romeira. A Pedra do Joelho encontra-se, hoje, ao léu, num largo espaço da última ladeira antes do acesso ao platô da Colina do Horto e sob uma humilde e pobre palhoça, de uns dois metros quadrados, formada por toscas e tortas estacas e coberta por meia dúzia de velhas e desgastadas folhas de carnaúba ou de catolé. Aquela palhoça é tão miserável, que, até mesmo nas horas de sol a pino, bodes têm vergonha de fugir da canícula debaixo de suas parcas sombras.Houve uma grita enorme de um grupo de cidadãos indignados com o desprezo a que está relegada a Pedra do Joelho, pedindo ao Prefeito Municipal, Dr. Raimundo Macedo, que transforme aquele logradouro numa bela praça. O Prefeito, Dr. Raimundo Macedo, assumiu o compromisso de executar as obras. Os alunos do Curso de Arquitetura da Faculdade Juazeiro do Norte - FJN, sob a coordenação - do Prof. Valdo Figueiredo, estão concluindo o projeto arquitetônico. Teremos sim naquele logradouro uma belíssima praça.Essa praça receberá o nome de Praça Dona Quinô. Será a primeira homenagem que Juazeiro presta à Mãe do Padre Cícero. 

Publicado orginalmente no http://www.juanorte.com.br/geova.html

Um comentário:

IDERVAL REGINALDO TENÓRIO Tenorio disse...

Caros Romeiros da mãe de Deus e do Padre Cícero, Romeiros do meu Padim, esta matéria veio a calhar a vontade de todos nós que acreditamos no Juazeiro. A fé cristã e o grande valor que tem o município para o Brasil, não pode deixar um dos símbolos desta terra em vão , simbolo gravado na cabeça de todos que nesta terra nasceu e viveu, como na cabeça de todos que visitaram e visitam Juazeiro do Norte desde a época do Padre fundador.

Vou um pouco mais longe, uma vez bem cuidada, mostrada, estudada e divulgada a pedra do Joelho voltará a possuir o mesmo valor que possuía na e´poca de nós crianças, quando colocávamos o nossos joelhos e saíamos regozijados de prazer , de alegria e muitas vezes nem banho tomávamos para não perdemos o milagre daquela sagrado momento.

Este patrimônio religioso figurará na rota turística, como uma das mais importantes passagens. O Juazeiro precisa deste importante marco.

Professor, colega e Prefeito Raimundo Macedo chegou a sua vez de dizer sim ao povo do Juazeiro, do Ceará, do Nordeste e do Brasil. A praça Dona Canô e a Pedra do Joelho serão um dos pontos turísticos mais visitados do Cariri, depois do monumento e da minha Praça do Socorro.

Parabéns ao Daniel, ao Portal do Juazeiro e ao Geová Sobreira.
Iderval Reginaldo Tenório