sexta-feira, 2 de junho de 2023

CUIDADO COM O QUE TU VÊS E OUVES - texto de Dom Samuel

 

CUIDADO COM O QUE TU VÊS E OUVES

 

Ensina-nos o apóstolo Paulo que a fé vem pelo sentido da audição. “A fé vem pelo ouvir”, escreveu ele. E, poder-se-ia acrescentar, também uma desgraça, uma tragédia.

Ouvidos sempre abertos para escutar tudo constituem uma espécie de perigo permanente. Ao colocar nossos primeiros pais no jardim do Éden, deu-lhes Deus uma ordem expressa: “Podereis comer de todas as árvores que estão no jardim, mas não comereis da árvore da ciência, pois no dia em que dela comerdes vossa morte estará marcada.” A serpente porém,(quem quiser saber quem é esta serpente, leia Apocalipse 12, 9 e 20, 2) disse outra coisa a Eva. Para sua desgraça e nossa, ela escutou a palavra do maligno e não tardou em fazer o que o mesmo Deus tinha expressamente vedado.

 Por ter escutado a astuta serpente, Eva ouviu de Deus: “Farei com que na gravidez tenhas grandes sofrimentos; é com dor que hás de gerar filhos. Teu desejo de impelirá para teu homem e este te dominará.” (Gn 3, 16) E por ter escutado a voz de sua mulher e desobedecido a Deus, Adão escutou palavras não menos terríveis do que as que tinham sido ditas a Eva: “Por teres escutado a voz da tua mulher e comido da árvore que eu te havia formalmente prescrito não comer, o solo será maldito por tua causa. É com fadiga que te alimentarás dele todos os dias de tua vida: ele fará germinar para ti espinho e cardo.” (Gn 3, 17 e ss) Seguiu-se a isto a expulsão de ambos do ameno paraíso onde tinham sido postos depois da criação.

De certa maneira, foi esta a causa da primeira grande tragédia sucedida na história humana:  alguém resolveu dar ouvidos a uma má palavra. E quantas palavras deste jaez andam circulando pelo mundo de dia e de noite com imensa rapidez não é preciso que eu diga, porque todos estamos perfeitamente cientes.

O que entra pela porta do ouvido, a qual quase sempre vive escancarada, tem poder de perturbar a mente, lançar a alma na escuridão e a depender do que tiver entrado, destroçar completamente uma vida.

Cuidado, pois com o que tu ouves...

Conta-nos o autor do segundo livro de Samuel que “numa tarde, David levantou-se da cama e pôs-se a passear pelo terraço do palácio real. Do alto do terraço, avistou uma mulher que se banhava. A mulher era muito bonita.” (2Sm cap. 11, versículo 2)

Aqui têve início – por causa dos olhos – toda a tragédia de David. Viu, desejou, adulterou e ainda por cima, cometeu a torpe vilania de mandar matar perfidamente o marido da mulher com quem adulterara, e que aliás era um dos seus mais fiéis vassalos. Dois graves crimes cometeu o rei David: adultério seguido de homicídio. O que se deve, porém notar é que ambos tiveram o seu início em um simples lançar de olhos.

Por causa deste deslize, Deus mandou um profeta notificar em seu nome a David que entre outras coisas, a espada jamais se afastaria de sua casa. “E porque fizeste o que desagrada ao Senhor e feriste a espada Uriá para fazer de sua esposa tua mulher, vou fazer surgir de tua própria casa a tua desgraça. Aos teus próprios olhos tomarei tuas mulheres e as darei a um outro. Tu agiste em segredo, mas eu farei tudo isso diante de todo o Israel e a luz do sol.” (2Sm 12, 9 – 12)

Não foi necessário mais do que olhar para Betsabéia (era esse o nome da mulher) para que o fogo de uma paixão impura e incontrolável se acendesse no peito de David. Aceso o fogo da paixão que consumiu todo o seu ser, perturbando-lhe a luz da razão, vieram depois o adultério e o homicídio.

E como não há crime que mais dia menos dia não seja exemplarmente punido por uma infalível justiça, David não tardou a sentir desabar sobre ele o braço da incorruptível justiça vingadora. E no princípio de tudo, na origem desta lamentável tragédia, um olhar, os olhos.

Cuidado com o que tu vês...!

 

 

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